sábado, 28 de março de 2009

"Não andeis ansiosos"...



SENTAR-SE À JANELA

Alexandre Garcia

Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião.
A ansiedade de voar era enorme.

Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito,
acompanhar o vôo desde o primeiro momento
e sentir o aviãocorrendo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.

Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul.
Tudo era novidade e fantasia..

Cresci, me formei, e comecei a trabalhar.
No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante.

As reuniões em outras cidades e a correria
me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.

No início pedia sempre poltronas ao lado da
janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e
nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a
bagagem, coisa e tal.

O tempo foi passando, a correria aumentando,
e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o
sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse.

Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e
sair, me acomodar rápido e sair rápido.

As poltronas do corredor agora eram
exigência . Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e
sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a
viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos 'acasos' do
destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa,
precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível.

O vôo estava lotado e o único lugar
disponível era uma janela, na última poltrona.
Sem pensar concordei de imediato, peguei meu
bilhete e fui para o embarque.

Embarquei no avião, me acomodei na poltrona
indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já
não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou,
lembrei-me da primeira vez que voara.
Senti novamente e estranhamente aquela
ansiedade, aquele frio na barriga.
Olhava o avião rompendo as nuvens escuras
até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.

Era de um azul tão lindo como jamais tinha
visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser
criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que
desprezava aquela vista.

Pensei comigo mesmo: será que em relação às
outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à
janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu
casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber,
deixamos de olhar pela janela da nossa vida.

A vida também é uma viagem e se não nos
sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são
nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do
corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade
de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado,
pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e
'ganhar tempo', pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar.

A aeronave da nossa existência voa célere e
a duração da viagem não é anunciada pelo comandante.
Não sabemos quanto tempo ainda nos resta.

Por essa razão, vale a pena sentar próximo
da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, 'a vida, a felicidade e a paz são
caminhos e não destinos'.

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